Loja Moleco

domingo, 9 de setembro de 2001

Ode à alegria



    O céu bem azul como a bacia de sua mãe lavar os pratos, a terra era vermelha e batida como deveria ser. Havia somente os pássaros por perto, enfileirados nos fios, esperando o sol esquentar as asas. O pequeno garoto se admirava com tanta beleza, na verdade não sabia muito bem o que era aquele sentimento, sabia que lhe preenchia todo e começava pelo peito.
    O azul parecia tão grande, era esse talvez o motivo de sua felicidade, e quanto maior parecesse mais contente ficava o menino. Era uma cor pura, sem nenhuma nuvem atrapalhando sua inocência de céu tranquilo. Também era bom ver o encontro do teto gigante com o verde profano. Milhares de tons em um só arbusto sustentavam a parede azulada. Poder sentir isso tudo de longe abarrotava o pequeno garoto de contentamento.
    Eram duas árvores enormes com folhas bem miúdas. Ficavam mais adiante, logo depois dos canários “esperadores” de sol. O garoto sentado em uma pedra improvisada as olhava curioso. Seu irmão mais velho disse que as árvores eram mágicas e possuíam um segredo. O problema maior do irmão primogênito era a mentira, porém daquela vez jurou verdade ao contar.
    Ico chegou e a dúvida já era outra:
    — De quê vamos brincar hoje?
    — Bolinha de Gude?
    — Tô com preguiça de ir em casa.
    — Bete?
    — Só tem nós dois, não vai dar.
    — Já sei, Gangorra!
    — Não temos Gangorra.
    — Mas temos árvore e meu pai tem uma corda.
    — Então tá.
    Leo subiu na árvore para amarrar a corda enquanto Frederico improvisava o assento. Ventava frio e os galhos aceitavam balançando de um lado para o outro junto com os garotos.
    O colega o empurrava cada vez mais forte. Era bom sentir o vento no rosto, a vontade era de se soltar e continuar cada vez mais alto, até poder encostar as mãos no céu. Olhou para trás pra tentar ver a distância dele para com o chão. Fechou os olhos e voou do balanço. A queda foi bem alta.
    Ficou desacordado por alguns minutos e a primeira coisa que viu, depois de abrir os olhos, foi uma ninhada de cães um pouco depois da árvore à esquerda. Ainda meio zonzo lembrou da história que sua mãe contou e, claro, a colocou em prática. Bateu palmas e cinco cães fugiram para trás de um caixote. Dois vieram cheirar e apenas um parou e olhou atentamente. Estava escolhido. Aquele seria o seu amigo guardião, um companheiro para suas aventuras.
    Ele era todo pretinho e seu corpo brilhava quando o sol o encontrava. A única coisa que incomodava o menino era uma certa melancolia no olhar do cão. O garoto procurou Ico para mostrar o novo amigo, mas ele havia sumido. Ouviu sua mãe gritar:
    — Levanta, vão brincar em pé?
    — O quê, mãe?
    — Levanta, vem tomar o café?
    Ele acorda atordoado e cai da cama. Já estava na hora de levantar. Minutos depois, o sonho começava a fugir de sua memória.

Texto e Ilustração: Douglas Zimmermann
Publicado no Caderno Literário Encontrare Nº 5

3 comentários:

Flávia disse...

Que lindo, Douglas! Não conhecia o seu talento literário. Parabéns mesmo!

Doug Mullet disse...

Valeu Flávia, estou me enveredando por este mundo novo. Obrigado pelo apoio.

@cislu disse...

Quem nunca viveu algo parecido na infância? Lindo! De uma sensibilidade tamanha... Até aqui tem referência aos quadrinhos.
Parabéns!