
O céu bem azul como a bacia de sua mãe lavar os pratos, a terra era vermelha e batida como deveria ser. Havia somente os pássaros por perto, enfileirados nos fios, esperando o sol esquentar as asas. O pequeno garoto se admirava com tanta beleza, na verdade não sabia muito bem o que era aquele sentimento, sabia que lhe preenchia todo e começava pelo peito.
O azul parecia tão grande, era esse talvez o motivo de sua felicidade, e quanto maior parecesse mais contente ficava o menino. Era uma cor pura, sem nenhuma nuvem atrapalhando sua inocência de céu tranquilo. Também era bom ver o encontro do teto gigante com o verde profano. Milhares de tons em um só arbusto sustentavam a parede azulada. Poder sentir isso tudo de longe abarrotava o pequeno garoto de contentamento.
Eram duas árvores enormes com folhas bem miúdas. Ficavam mais adiante, logo depois dos canários “esperadores” de sol. O garoto sentado em uma pedra improvisada as olhava curioso. Seu irmão mais velho disse que as árvores eram mágicas e possuíam um segredo. O problema maior do irmão primogênito era a mentira, porém daquela vez jurou verdade ao contar.
Ico chegou e a dúvida já era outra:
— De quê vamos brincar hoje?
— Bolinha de Gude?
— Tô com preguiça de ir em casa.
— Bete?
— Só tem nós dois, não vai dar.
— Já sei, Gangorra!
— Não temos Gangorra.
— Mas temos árvore e meu pai tem uma corda.
— Então tá.
Leo subiu na árvore para amarrar a corda enquanto Frederico improvisava o assento. Ventava frio e os galhos aceitavam balançando de um lado para o outro junto com os garotos.
O colega o empurrava cada vez mais forte. Era bom sentir o vento no rosto, a vontade era de se soltar e continuar cada vez mais alto, até poder encostar as mãos no céu. Olhou para trás pra tentar ver a distância dele para com o chão. Fechou os olhos e voou do balanço. A queda foi bem alta.
Ficou desacordado por alguns minutos e a primeira coisa que viu, depois de abrir os olhos, foi uma ninhada de cães um pouco depois da árvore à esquerda. Ainda meio zonzo lembrou da história que sua mãe contou e, claro, a colocou em prática. Bateu palmas e cinco cães fugiram para trás de um caixote. Dois vieram cheirar e apenas um parou e olhou atentamente. Estava escolhido. Aquele seria o seu amigo guardião, um companheiro para suas aventuras.
Ele era todo pretinho e seu corpo brilhava quando o sol o encontrava. A única coisa que incomodava o menino era uma certa melancolia no olhar do cão. O garoto procurou Ico para mostrar o novo amigo, mas ele havia sumido. Ouviu sua mãe gritar:
— Levanta, vão brincar em pé?
— O quê, mãe?
— Levanta, vem tomar o café?
Ele acorda atordoado e cai da cama. Já estava na hora de levantar. Minutos depois, o sonho começava a fugir de sua memória.
Texto e Ilustração: Douglas Zimmermann
Publicado no Caderno Literário Encontrare Nº 5






3 comentários:
Que lindo, Douglas! Não conhecia o seu talento literário. Parabéns mesmo!
Valeu Flávia, estou me enveredando por este mundo novo. Obrigado pelo apoio.
Quem nunca viveu algo parecido na infância? Lindo! De uma sensibilidade tamanha... Até aqui tem referência aos quadrinhos.
Parabéns!
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